Após caminhar 12 mil km nos Estados Unidos, mineiro relata bastidores marcados por solidão, dúvidas e transformações

  • 04/01/2026
(Foto: Reprodução)
Mineiro de Divinópolis completa Tríplice Coroa das Trilhas Jeff Santos/Arquivo Pessoal O mineiro de Divinópolis Jeff Santos voltou ao Brasil no fim de novembro após concluir um feito alcançado por menos de mil pessoas no mundo: a Tríplice Coroa das Trilhas, formada pela Appalachian Trail, Pacific Crest Trail e Continental Divide Trail. As três rotas cruzam os Estados Unidos e somam mais de 12 mil quilômetros percorridos a pé, por desertos, cadeias de montanhas, florestas e regiões isoladas do país. Jeff é considerado o primeiro brasileiro não expatriado a alcançar o feito — ou seja, sem morar fora do país, indo aos Estados Unidos exclusivamente para realizar as caminhadas. Em entrevista ao g1, Jeff contou como a experiência começou durante um período de depressão, falou sobre os desafios da solidão extrema, explicou o que mudou desde a primeira trilha, iniciada em 2007, e relatou as dificuldades da readaptação após meses vivendo na estrada. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp Veja os vídeos que estão em alta no g1 A depressão que virou caminhada A primeira grande trilha surgiu como uma tentativa de enfrentar um momento delicado da saúde mental. Em 2015, em meio a uma crise de depressão, Jeff decidiu caminhar como forma de buscar equilíbrio. “Eu estava passando por uma crise muito forte. Resolvi caminhar para tentar me ajudar nesse processo de recuperação”, contou. O ponto de partida foi o Caminho da Fé, com cerca de 420 km entre o interior de São Paulo e Aparecida. Depois vieram a Estrada Real e outros percursos no Brasil, até que, em 2017, ele encarou o primeiro grande desafio internacional: a Appalachian Trail. A experiência, no entanto, começou sem preparo. “Eu nunca tinha acampado na vida. Minha primeira noite em uma barraca foi já na Appalachian. Testei o equipamento no sítio da minha irmã e fui. Nunca tinha dormido numa barraca antes”, lembrou. A Appalachian Trail, com cerca de 3.500 km, foi a primeira das três grandes trilhas. Em 2019, veio a Pacific Crest Trail. Em 2025, Jeff concluiu a Continental Divide Trail, considerada a mais isolada e desafiadora. “Você vai querendo mais desafio. Dos 400 km do Caminho da Fé, passei para a Estrada Real, depois para a Appalachian. Quando percebe, já está pensando nas outras. A Tríplice Coroa acabou sendo consequência”, afirmou. Solidão, silêncio e o deserto de si mesmo A solidão foi um capítulo à parte na Continental Divide Trail. Enquanto cerca de 5 mil pessoas tentam percorrer a Appalachian todos os anos, menos de 500 se arriscam na Continental. “No Novo México, eu andava dias sem ver uma única pessoa. Em Montana, que é metade do tamanho de Minas Gerais, mora menos gente do que em Belo Horizonte. É muito isolado”, relatou. Para se sentir acompanhado, ele encontrou apoio no próprio público na internet. “Eu gravava vídeos conversando com a câmera. Quando chegava a uma cidade e tinha sinal, lia os comentários. Isso dava uma sensação de companhia". Dúvidas, descrença e mudança de perspectiva Ao anunciar que faria as trilhas nos Estados Unidos, Jeff disse que não enfrentou desconfiança sobre capacidade física, mas sobre o propósito da escolha. “As pessoas perguntavam: ‘Por que você vai fazer isso?’ Eu sempre fui urbano, nunca fui atleta, sou o caçula de nove filhos de uma família simples. Parecia algo distante". Hoje, ele vê a própria trajetória como prova de que grandes desafios são mais acessíveis do que parecem. “Se eu, com mais de 50 anos, consegui, qualquer pessoa consegue. Não é uma aventura cara. Depende mais do corpo e da vontade". O Jeff de antes e o de agora Mineiro de Divinópolis completa Tríplice Coroa das Trilhas Jeff Santos/Arquivo Pessoal Uma das reflexões mais fortes de Jeff é sobre quem ele era quando começou. “O Jeff de 2007 tinha excesso de confiança. Achava que já sabia muito porque tinha feito duas trilhas no Brasil. Quando fui para a Appalachian repeti que sabia tudo, e descobri que não sabia nada". A maturidade, como ele descreve na entrevista, veio com os erros. “Lá atrás fui com peso acima, achando que ia emagrecer. Erro. Nessa última, fiz o contrário: fui na minha melhor condição física. Na minha primeira grande trilha, tive lesões por esforço extremo. Nessa agora, não tive nenhuma", avaliou. Hoje, ele reconhece o quanto as caminhadas foram responsáveis pelas grandes transformações como ser humano. “Sou outra pessoa. Aprendi muito estudando sobre trilhas, caminhando aqui e fora. Caminhar tem proximidade com filosofia, religião, cultura. Quanto mais você caminha, mais você se conhece. E melhor fica esse caminhar", pontuou. Depois da Tríplice Coroa: a síndrome do pós-trilha Depois de chegar ao Brasil, Jeff ainda sente o impacto emocional da volta. “Estou aterrissando. É estranho voltar ao barulho, aos estímulos. Na trilha, você só caminha, come e dorme. Aqui, tudo te atropela.” Ele descreve a chamada depressão pós-trilha, comum entre caminhantes de longa distância. “Tem gente que perde muito peso e depois ganha tudo de volta. Gente que não consegue voltar a trabalhar, porque só pensa na próxima trilha. Não é fácil readaptar. Você decide fazer a trilha, prepara, sofre, jura que nunca mais vai fazer aquilo, termina, entra na depressão pós-trilha e começa a planejar a próxima". Durante as três travessias, Jeff acumulou números impressionantes: 12.046 km percorridos 406 mil metros de elevação acumulada (equivalente a subir o Everest 46 vezes) 17 milhões de passos 11 pares de tênis gastos 34 kg perdidos 2.800 calorias consumidas por dia Mas, para ele, o que realmente importa não cabe em estatística. “A maior conquista é interna. Caminhar me salvou, me fortaleceu e me levou para lugares onde eu nunca imaginei chegar". Aventureiro e escritor Além de aventureiro, Jeff é escritor e já publicou três livros sobre as travessias que já fez. As obras são: Appalachian Trail: Cruzando os Estados Unidos a Pé, Pacific Crest Trail: O Diário de uma Travessia do México ao Canadá, Planejamento e Equipamentos para Trilhas. O próximo, que narrará a experiência na Continental Divide Trail, será lançado em 2026. Hoje, ele compartilha experiências em palestras e projetos culturais, com o objetivo de inspirar pessoas a buscarem propósito e equilíbrio através do contato com a natureza. “Completar a Tríplice Coroa me mostrou que o mais importante não é o destino, e sim o caminho. Quando a gente segue em frente, um passo de cada vez, tudo se resolve”, refletiu. LEIA TAMBÉM: De Divinópolis a Aparecida: ciclistas percorrem mais de 300 km movidos pela fé em Nossa Senhora VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/centro-oeste/noticia/2026/01/04/apos-caminhar-12-mil-km-nos-estados-unidos-mineiro-relata-bastidores-marcados-por-solidao-duvidas-e-transformacoes.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. Ex dos Meus Sonhos

Gusttavo Lima

top2
2. 5 Regras

Jorge & Mateus

top3
3. Pactos

Matheus & Kauan, Jorge & Mateus

top4
4. Assunto Delicado

Guilherme e Benuto feat Xand Avião

top5
5. Nem Namorado e Nem Ficante.

Israel & Rodolffo, Maiara e Maraisa

Anunciantes