Fazendeiro é denunciado por trabalho análogo à escravidão em MG; trabalhadores comiam milho para sobreviver, diz MPF

  • 06/02/2026
(Foto: Reprodução)
Alojamento de carvoaria apresentava condições degradantes para dignidade humana em Tapira, segundo MPF MPF/Reprodução Sete trabalhadores resgatados de uma carvoaria na zona rural de Tapira, no Alto Paranaíba, relataram ter sobrevivido por dias apenas à base de milho verde e, em algumas ocasiões, dormido com fome enquanto eram submetidos a jornadas exaustivas de trabalho. O caso levou o Ministério Público Federal (MPF) a denunciar o fazendeiro e o encarregado pelos crimes de aliciamento de trabalhadores e redução à condição análoga à escravidão. Segundo a denúncia, os trabalhadores foram recrutados entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021 em cidades localizadas a até 955 quilômetros de distância de Tapira, como Sete Lagoas, Bocaiúva e São João do Paraíso, no Norte de Minas. Eles receberam promessas de registro em carteira, pagamento regular e condições dignas de moradia. Mas, de acordo com o MPF, nunca as promessas nunca se concretizaram. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Após vistoria de auditores fiscais, o MPF considerou o caso como violação persistente e cruel das condições mínimas de dignidade humana. Por isso, além da condenação criminal, o órgão pediu que a Justiça determine indenização mínima por danos morais de R$ 100 mil por cada trabalhador. O processo tramita na Justiça Federal de Uberaba. 🔎 O art. 207 do CP trata do aliciamento ou recrutamento de trabalhadores para outra localidade, especialmente com fraude, cobrança ou sem garantia de retorno, prevendo pena de reclusão de 1 a 3 anos e multa. Já o art. 149 pune a redução à condição análoga à de escravo, caracterizada por trabalhos forçados, jornada exaustiva, condições degradantes ou restrição da liberdade, com pena de reclusão de 2 a 8 anos e multa. Trabalhadores declararam que dormiam com fome De acordo com os depoimentos colhidos durante a fiscalização, a alimentação fornecida era escassa e nutricionalmente inadequada, geralmente restrita a arroz, feijão, abóbora e ovos. Em diversas ocasiões, os trabalhadores relataram que a quantidade não era suficiente para todos. Muitas vezes eles dormiam com fome. Além disso, algumas vítimas afirmaram ter passado dias se alimentando apenas de milho verde, obtido em fazendas vizinhas, mesmo após pedirem comida ao encarregado da carvoaria. Em um dos relatos, um trabalhador afirmou ter ficado três dias sem comer, enquanto continuava exercendo atividades pesadas, como o corte de eucalipto e a alimentação dos fornos de carvão. As refeições, conforme a denúncia, eram feitas no chão ou em locais improvisados, já que não havia refeitório ou espaço adequado para alimentação. Alojamento precário e água sem tratamento De acordo com o MPF, os sete trabalhadores estavam alojados em construções improvisadas, com cerca de 50 metros quadrados, paredes sem reboco, telhado sem forro e sem vedação adequada, o que os expunha à poeira, insetos e animais peçonhentos. Os colchões estavam rasgados e deteriorados, e não havia armários ou mobiliário básico. O único banheiro do local não tinha chuveiro funcional e nem torneira na pia. A higiene pessoal era feita com baldes, enquanto a água utilizada para beber, cozinhar e tomar banho era retirada de um córrego próximo, armazenada em uma caixa semiaberta e consumida sem qualquer tipo de filtragem. LEIA TAMBÉM: Fome, 14 horas de trabalho e alojamento de lona: homens em situação análoga à escravidão são resgatados em carvoaria de MG Madalena Gordiano: envolvidos no caso da mulher que viveu 40 anos em situação análoga à escravidão em MG são ouvidos em audiência Vítima chegou a 15 horas de trabalho sem descanso Ainda conforme a denúncia, os trabalhadores eram submetidos a jornadas exaustivas, que começavam nas primeiras horas da manhã e se estendiam até a noite. No relato de uma das vítimas, ela contou que chegou a fazer turnos de até 15 horas ininterruptas, sem controle formal de jornada ou descanso semanal regular. Nenhum dos trabalhadores teve a carteira de trabalho assinada ou contrato formalizado e o pagamento não era feito de forma regular. Isolamento e impedimento de ir embora Ainda na denúncia assinada pelo procurador da República Onésio Soares Amaral consta que a carvoaria ficava em uma área rural de difícil acesso, e os trabalhadores permaneceram praticamente isolados durante meses. Em um período de três meses, alguns relataram ter ido à cidade de Tapira apenas duas vezes. A comunicação também comprometia o isolamento dos funcionários. O sinal de celular não funcionava no local e os aparelhos precisavam ser carregados de forma improvisada na bateria de um trator. Quando manifestaram o desejo de retornar às cidades de origem, eles foram informados de que só poderiam sair em data determinada pelo encarregado ou, alternativamente, pagando a própria passagem. "Agindo livre e conscientemente [os denunciados] foram os responsáveis pelo recrutamento fraudulento dos trabalhadores, não assegurando condições do retorno deles aos locais de origem [...] mantiveram sete trabalhadores em condições análogas à condição de escravos, sujeitando-os a jornada excessiva e a condições degradantes de trabalho e limitando também a liberdade de locomoção", considerou o procurador. Trabalhadores resgatados de carvoaria em Tapira, no Alto Paranaíba MPF/Reprodução Trabalhadores resgatados de carvoaria em Tapira, no Alto Paranaíba MPF/Reprodução ASSISTA TAMBÉM: Minas lidera resgate de pessoas em trabalho análogo à escravidão MG lidera resgate de pessoas em trabalho análogo à escravidão VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2026/02/06/fazendeiro-e-denunciado-por-trabalho-analogo-a-escravidao-em-mg-trabalhadores-comiam-milho-para-sobreviver-diz-mpf.ghtml


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